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Presidente da Câmara Municipal de Braga, Ricardo Rio: Eu costumo dizer que Braga traduz uma fusão singular entre história e futuro, tradição e juventude

Hoje, vivemos o tempo da Europa das Cidades, em que o potencial inovador e transformador destes territórios tem que ser potenciado e replicado à escala nacional e europeia
  • Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018, 13:00h, 3235 impressions
  • Author Olya Georgieva
Medium oficialcmb05062018sergiofreitas00000013074
Fonte: Municipality of Braga

O Senhor Ricardo Rio é o Presidente da Câmara Municipal da Braga desde 2013. Como você consegue manter a confiança das pessoas? Quais foram os principais problemas na sua agenda 5 anos atrás e quais são hoje?

Importa fazer um breve enquadramento histórico: eu fui eleito em 2013 e reeleito em 2017, sucedendo a um Presidente de Câmara que esteve 37 anos em funções, vencendo 10 atos eleitorais consecutivos (os últimos dois já contra mim como líder da oposição). Esta circunstância permitiu que eu e a minha equipa pudéssemos construir um projeto sólido, com uma alternativa credível e com uma visão de futuro num horizonte de 12 anos – Braga 2025-, que comecei a implementar imediatamente após a minha eleição. Isto permitiu também fazer uma rutura clara com o passado em múltiplas áreas, como sejam o desenvolvimento económico, a cultura, a salvaguarda do património ou do meio ambiente, as respostas sociais ou as políticas da juventude, ao mesmo tempo que guindava Braga a uma referência internacional em cada um desses domínios.

Por outro lado, existe hoje uma postura de grande proximidade com os cidadãos e de cooperação com as instituições, e uma ação municipal sempre centrada no bem-estar das pessoas e na qualidade de vida, com grande transparência, rigor na gestão e abertura à participação. 

Depois de concretizadas essas transformações, num esforço sempre inacabado, Braga tem que acomodar o seu crescimento (na mobilidade, no ordenamento urbano, nas políticas de habitação), ao mesmo tempo que se moderniza e transforma numa cidade cada vez mais cosmopolita e inovadora, também na esfera municipal.

Braga ou Bracara Augusta, como os romanos a baptizaram, é a cidade mais antiga de Portugal. Como você consegue preservar a história e as tradições na sua cidade historica e ao mesmo tempo modernizá-la?

Eu costumo dizer que Braga traduz uma fusão singular entre história e futuro, tradição e juventude. Somos uma cidade com mais de 2.000 anos, desde a Bracara Augusta que foi a capital do Império Romano no noroeste peninsular, sendo por essa via uma das mais antigas da Europa. Mas, ao mesmo tempo, temos 40% da nossa população abaixo dos 30 anos de idade, sendo também uma das cidades mais jovens do país e do continente. Fomos Capital Europeia da Juventude em 2012 e Capital Ibero-Americana da Juventude em 2016.

A nossa história deixa-nos um vasto legado monumental, presente e valorizado até à atualidade, do período romano ao barroco, passando também pela incontornável presença do património religioso na “Cidade dos Arcebispos”

Mas, a chegada da Universidade do Minho ou do INL – Laboratório Internacional de Nanotecnologia, bem como de diversas empresas ligadas a setores de vanguarda, transformaram a cidade num dos polos mais inovadores e criativos, com impacto em todas as áreas da cidade.

Braga foi oficialmente designada como Cidade Criativa da UNESCO no domínio das Media Arts. Qual foi o impacto na cidade com a estratégia implementada da Câmara municipal destinada a apoiar as Media Arts e as indústrias criativas?

A própria candidatura de Braga a integrar esta rede na área das Media Arts foi uma afirmação pública e internacional do enorme potencial criativo, artístico e tecnológico que a cidade regista. Através deste projeto estamos a ligar de forma inovadora, estruturas de conhecimento, equipamentos culturais, empreendedores e artistas. Desta combinação resultam várias iniciativas nos campos educativo, científico, cultural, económico e social, que se materializam em diversos projetos e eventos ao longo do ano, mas também em novas infraestruturas, como o Media Arts Center que vai nascer no antigo Cinema S. Geraldo até 2020. Braga reforçou também a sua visibilidade internacional, integrou novas redes de cooperação e criou alicerces para a candidatura a Capital Europeia da Cultura em 2027.

Braga recebeu a distinção de Melhor Cidade Europeia do Desporto 2018 este ano. Quais sao os proximos passos do municipio para implementar e promover a atividade física e um estilo de vida saudável na sua cidade?

O mote da Cidade Europeia do Desporto era o “Desporto para Todos”, isto é, a utilização do desporto enquanto ferramenta de apoio à promoção dos hábitos de vida saudáveis para toda a população, à inclusão, à formação e à valorização do respeito pelos outros. As mais de 600 atividades realizadas ao longo deste ano, envolveram 80 modalidades, 200.000 praticantes e quase meio milhão de espetadores, em eventos competitivos, de cariz nacional e internacional, mas também em muitas atividades abertas a todos os cidadãos.

Nos anos vindouros, manter-se-ão muitos dos eventos de referência que Braga passou a acolher, mas daremos sobretudo seguimento aos programas de promoção da atividade física para todas as camadas da população: das crianças de tenra idade que aprendem a nadar, aos jovens que praticam desporto nas dezenas de colectividades amadoras, aos utilizadores do Centro de Marcha e Corrida, aos doentes oncológicos acompanhados pelo pioneiro Programa Pulsar, aos quase 3.000 idosos que têm uma atividade física regular.

E continuaremos a dotar a cidade de uma variedade de equipamentos desportivos, cobertos e ao ar livre, que potenciem e qualifiquem essa prática desportiva.

O desenvolvimento económico do concelho de Braga é o pilar central da política municipal de Braga. Conte-nos mais sobre o Plano Estratégico para o Desenvolvimento Económico.

Em 2013, Portugal atravessava uma profunda crise a que Braga não ficou indiferente. A taxa de desemprego chegava aos 15%, o desemprego de jovens licenciados ultrapassava os 25% e empurrava muitos cidadãos para a emigração. O setor de construção civil que em Braga tinha um peso considerável enfrentava fortes dificuldades que levou diversas empresas à falência.

O desenvolvimento económico da cidade, a atração de mais empresas e a criação de postos de trabalho era uma prioridade óbvia. A minha primeira prioridade foi juntar todos os agentes de desenvolvimento da cidade e criar um novo modelo de governança. A Câmara Municipal, as Universidades, o INL, as Associações Empresariais e vários outros protagonistas locais, regionais e nacionais, desenvolvemos o Plano Estratégico de Desenvolvimento Económico, em que efetuamos o diagnóstico dos nossos fatores de competitividade, traçamos uma estratégia para o futuro, mas também partilhamos responsabilidades na sua execução.

InvestBraga é a nova Agência para a Dinamização Económica de Braga. Conte-nos mais sobre os objetivos estratégicos, o que está ja alcançado e o que pretende alcançar no futuro proximo?

A InvestBraga surgiu logo em 2014 como o pilar de toda a estratégia de desenvolvimento económico do concelho. Trata-se de uma empresa 100% municipal que se assumiu como a primeira Agência para o Desenvolvimento Económico de base local no país.

No seu raio de ação caem três vertentes fundamentais: a captação de investimento ou o apoio à expansão de empresas já sedeadas em Braga; o apoio ao empreendedorismo através da Startup Braga (uma parceria com a Microsoft Ventures); a gestão do segundo maior equipamento de Portugal para Feiras, Exposições, Congressos, Concertos ou eventos desportivos: o Forum Braga, que foi totalmente renovado em 2018.

Neste período, Braga criou mais de 8.000 novos postos de trabalho líquidos; atraiu empresas como a Accenture, a Fujitsu, a Farfetch, ou a Webhelp; viu serem criados Centros de Investigação e Desenvolvimento em ligação com a Universidade do Minho pela Bosch Car Multimedia ou pela Aptive, que empregam centenas de profissionais; subiu a terceiro concelho mais exportador do país (com 2 mil milhões de Euros); viu o turismo crescer a um ritmo de 35% ao ano e atraiu novas unidades hoteleiras; atraiu marcas como a Starbucks, o Ikea, a Leroy Merlin ou a Mercadona (esta ainda em desenvolvimento).

O potencial de crescimento futuro é ainda significativo. Queremos atrair mais empresas e apoiar mais empreendedores, sobretudo nas áreas de IT, Biotecnologia, Nanotecnolgia e Ciências da Saúde. Vamos reforçar a nossa atratividade no turismo científico e de negócios, mas também continuar a divulgar a nossa elevada qualidade de vida e a energia vibrante de uma cidade em que há sempre algo a acontecer.  

O Município tem feito uma forte aposta na sensibilização ambiental da população, dirigida sobretudo às crianças e jovens, com maior aptidão para a mudança de comportamentos e hábitos. Conte-nos mais sobre algumas ações ambientais e os resultados atingidos ate agora?

É impossível penar na promoção de políticas mais sustentáveis e amigas do meio ambiente que não envolvam a mudança de padrões culturais e de comportamentos, em áreas como a mobilidade, a eficiência energética ou a valorização dos recursos naturais. Braga tem trabalhado cada um destes domínios em projetos de cooperação com a sociedade civil e em colaboração com redes nacionais e internacionais, mas também através de ações pedagógicas junto do público mais jovem.

O projeto “School Bus”, no âmbito dos Laboratórios para a Descarbonização, o projecto “A minha escola é eficiente”, na esfera energética, a rede de Eco-Escolas ou o projeto “Rios”, de acompanhamento e limpeza dos cursos de água são um excelente exemplo desta abordagem junto da comunidade educativa.

Braga é um dos polos tecnológicos mais vibrantes e importantes de Portugal. Conte-nos sobre o nascimento de vosso cluster que abriu caminho a uma nova era de empresas de tecnologia, estúdios de comunicação digital, laboratórios e centros de investigação na área da robótica, jogos, multimédia e media arts.

A ligação de Braga às novas tecnologias surge com a chegada da Universidade do Minho em meados dos anos 70 do século passado e com a aposta em cursos de licenciatura muito centrados em áreas diferenciadoras.

Os primeiros graduados da Universidade tornaram-se os primeiros empreendedores desta área na década de 80, criando um vasto rol de empresas que ganharam projeção nacional e internacional, na produção e desenvolvimento de software e hardware.

De então para cá, a criação de diversos Centros de Investigação, a chegada do INL, a atração de várias empresas e de milhares de profissionais transformaram a cidade num polo extremamente inovador, capaz de contaminar positivamente as várias esferas da comunidade, da cultura à economia, da mobilidade à gestão urbana.

Nos últimos anos, este processo intensificou-se a um ritmo ainda mais acelerado, criando condições para a captação de novos projetos e para a atração de recursos qualificados destas áreas. 

Como o Senhor Presidente da Câmara Municipal encontra a ideia de uma plataforma unificada para todas as cidades europeias onde os cidadãos europeus podem obter informações sobre tudo o que acontece na União? Como essa plataforma pode ser útil para os seus projetos?

Pessoalmente, valorizo muito a ideia de uma Europa unida na sua diversidade, capaz de potenciar a partilha de boas práticas e as relações de colaboração entre todas as instituições.

Hoje, vivemos o tempo da Europa das Cidades, em que o potencial inovador e transformador destes territórios tem que ser potenciado e replicado à escala nacional e europeia.

Neste contexto, o trabalho desenvolvido pelo “The Mayor” deverá merecer a atenção dos responsáveis europeus, mas assume-se como uma ferramenta preciosa para os responsáveis políticos locais e como uma fonte de informação muito rica para todos os cidadãos.

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